segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Bíblia: O legado na ficção ocidental

O legado na ficção ocidental
De Dante a Kafka, um mapa do legado bíblico na tradição literária
Por: Flávio Aguiar
A imagem central da Bíblia é a da transformação, pelo menos em sua tradução evangélica. A água transforma-se em vinho, o vinho em sangue. Uma coisa pode vir a ser outra: essa é a grande lição bíblica, ou uma coisa pode se revelar como outra.
Na Bíblia encontramos mutações extraordinárias a todo momento. Javé cria o mundo, partejando-o da treva, separando a terra da água e modelando um jardim, onde põe o homem e a mulher. Mas logo a seguir Eva cria o seu mundo, recriando a própria criação.
É certo que a serpente, imagem de uma Lilith ou Lâmia, espírito maligno, a induz ao feito; mas é ela, Eva, que assim escolhe ser, retraça o seu destino e o de Adão, e inaugura a história humana.
Séculos e séculos, e livros e livros depois, uma outra mulher se transfigura em mãe do Messias; é o anjo que anuncia a gravidez e assim mesmo a engravida pela palavra: "Ave, Maria, bendita sois vós...". Mas é ela que acolhe o destino e revoluciona, dessa forma, não só o mundo, mas o destino das mulheres, ainda que seu exemplo posterior tenha sido usado para construir uma aura de submissão característica de uma sociedade patrícia e patriarcal.
Que diferença em relação ao brilho dos personagens da tradição helena! Aquiles brilha para nós porque será sempre Aquiles, Odisseu será sempre o astuto inventor do cavalo da traição, Heitor é extraordinário porque permanece ele mesmo até o fim.
A melhor tradução dessa permanência do caráter na cultura helênica nos deu o teatro grego, com suas máscaras. A máscara não esconde, mas revela o caráter do personagem. O personagem é a persona que reveste o ator. Édipo é orgulhoso porque é a encarnação do orgulho; com isso derrota a Esfinge, mas, ao mesmo tempo, por não poder ser de outra maneira, vai ao encontro de seu trágico destino. Os perfis dessa tradição são homens e mulheres extraordinários em sua maioria, colocados em situações de exposição extrema.
Já na Bíblia, desde o Antigo Testamento até o Novo, qualquer ser humano, por mais ínfimo que seja, espelha a humanidade como um todo. O "povo escolhido" passa escravizado quase a maior parte do tempo. Caim era lavrador e Abel, pastor. Abraão, o patriarca, era um camponês. Noé foi um carpinteiro (entre outras coisas) que se fez armador ao construir a arca; depois do dilúvio assou toda a carne que levara nela sob a forma de animais vivos; tornou-se vinhateiro e se embebedou. E assim por diante: Moisés foi príncipe, mas era filho de escrava. Cristo semeou entre pescadores, pequenos funcionários como coletores de impostos, prostitutas, pobres e doentes.
Esta força da transformação do destino e do simples em grandioso, aponta Frye em várias passagens, faz parte do principal legado da Bíblia à tradição da literatura do Ocidente, ao lado do travejamento de imagens e de situações que se espelham e se resolvem umas às outras. Esteve presente em grandes momentos da constituição das nossas literaturas.
Quase ao fim do Medievo, Dante a capta ao retraçar o destino humano nas profundezas do Inferno, que é o primeiro dos reinos que ele visita ao começar seu périplo alegórico pelo outro mundo. Pela ortodoxia cristã, nessa altura já consubstanciada na Suma Teológica de São Tomás de Aquino, os condenados do Inferno estavam fadados ao silêncio eterno e à treva total, exceto pelo brilho nos olhos do fogo interior que os consumia.
Entretanto Dante lá desce, ouve-lhes as histórias, e rompe o silêncio prometendo contá-las na superfície, como faz no poema. As passagens pelo Purgatório e depois pelas esferas celestes são igualmente extraordinárias e seminais para a nossa tradição literária; mas não têm a grandiosidade dramática contida nas palavras candentes dos personagens infernais, que reivindicam a radicalidade de suas histórias humanas, num movimento que está prestes a romper para sempre a moldura medieval da estabilidade sempiterna.
No fundo do círculo dos sedutores, Odisseu conta a Dante da viagem que empreendeu pelo Atlântico afora, em busca do conhecimento. A viagem lhe terminou mal; mas em compensação era o prenúncio do Novo Mundo que se estava por inaugurar.
Vivendo num momento revolucionário, o poeta inglês John Milton, no século XVII, captou a essência da transformação do que estava se construindo no seu Paraíso Perdido. Essa marca se encontra tanto na assembleia dos demônios, depois da Queda, quando eles debatem como devem retomar sua luta contra Deus, como no modo como conta o destino de Eva e Adão, que se entregam à radicalidade dos sentimentos humanos, demasiadamente humanos.
Depois de comer do fruto da danação, Eva pede a Adão que se salve, salvando assim também o Paraíso. Ela age assim por amor: não quer que o companheiro desfrute do seu destino de perdição. Entretanto, pelo mesmo amor, Adão diz que não poderá mais viver sem ela, preferindo perder-se a perdê-la.
Em outro quadrante revolucionário, o do século XVIII, o poeta também inglês William Blake vai inaugurar um redesenho do mundo poético, que espelha a extraordinária transformação que a independência das colônias americanas prenuncia e que depois a Revolução Francesa consagra em solo europeu. Não mais a estabilidade das altas esferas atrai os poetas como material poético; ao contrário, é o fogo subterrâneo, a forja das rupturas históricas que, com seu ímpeto revolucionário, descortina o horizonte do possível, como no seu poema "O casamento do céu e do inferno".
Ainda hoje podemos invocar a palavra bíblica para nos ajudar a decifrar os signos do nosso tempo. O que é o destino de Joseph K, em O processo, de Kafka, senão a perda do ser humano num labirinto completamente dessacralizado, cujas trilhas não libertam, só esmagam? Não parece ser este também o destino da contemporaneidade, comprimida entre fanatismos que, em nome de diferentes Bíblias, inclusive uma que se diz laica e republicana, se perde em meio a guerras e ocupações infindas, lembrando a esterilização a que se quis levar Sansão?


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Fonte:
Revista Biblioteca Entre Livros. Nº 2: A Bíblia Muito Além da Fé. Duetto Editorial. São Paulo, págs. 65-66.

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